Sal é uma ilha do grupo do Barlavento de Cabo Verde e conselho do
mesmo nome. É uma das menores ilhas habitadas, estendendo-se por 30 km
de comprimento e 12 km de largura.
Dez razões para descobrir uma das ilhas mais turísticas
de Cabo Verde, deixando-se seduzir pela natureza desértica, o mar
azul-turquesa, a simpatia do povo e o ritmo de uma música contagiante.
Assim que aterramos no Sal, às onze da noite, depois de apenas quatro
horas de voo, e saímos a pé do avião até ao edifício do aeroporto,
sentimos um vento quente. Imediatamente esquecemos o registo europeu e
acertamos o ponteiro com o ritmo africano. Sem nunca perdermos a
sensação de estar em casa. Aqui fala-se português (e crioulo, claro), a
sinalização na estrada aquela que segue sempre a direito, sem trânsito, e
onde a certa altura se avista mar de um lado e do outro é igual à
nossa, e o Benfica, o clube de eleição. Dantes, os turistas vinham para
aqui, punham a pulseirinha do hotel no pulso, e só tinham de decidir se
passavam o dia à beira da piscina ou iam até ao areal fino, dar um
mergulho no mar azul-turquesa, de temperatura simpática. Quase sempre
com vento à mistura. Ainda há quem não saia dos hotéis. Mas, se
realmente quiser experimentar a ilha e conhecer como vivem os
cabo-verdianos, o melhor é seguir as nossas instruções:
1 - Boiar nas salinas
Não
importa como lá se chega de pick up, mota, autocarro, carro alugado ou
outro veículo, mas é imprescindível passar algum tempo nas salinas de
Pedra de Lume, que deram nome à ilha. Antes de se passar no buraco que
dá acesso à cratera do antigo vulcão (por €5), a vista lá de cima torna a
experiência mais rica. Mas não é a paisagem que transforma esta visita
num dia especial. Tomar aqui banho, isso sim, faz toda a diferença. Nos
primeiros momentos tudo parece igual, mas de repente o corpo perde o
peso e, como no Mar Morto, começa a flutuar, tornando-se impossível
nadar. Enquanto se aguentar, o divertimento é encontrar uma posição
cómoda, sem dar encontrões às outras pessoas. Mas depressa o sal nos
olhos e na boca começa a incomodar, obrigando ao fim da brincadeira. Por
€1, ganha-se um duche de água doce antes de se sair. Caso contrário,
segue-se salgado o resto da viagem. Mas que isso não impeça de se
reparar, ao longo do caminho, nas rudimentares estruturas de madeira,
que serviram, no passado, para o transporte do sal.
2 - Uma piscina natural
Um
caminho pelo deserto assim se atinge a Buracona, uma piscina formada no
meio das rochas escuras e onde sabe bem tomar banho, mesmo em dias de
muito vento. Qualquer que seja o meio de transporte, os saltos causados
pelos buracos da estrada de terra batida são inevitáveis nesta longa
viagem, onde até temos direito a miragens. Para-se na Suvenir Mirage
(assim mesmo), uma cabana repleta de artesanato cabo-verdiano, gerida
por Emanuel. Do nada, aparecem os franzinos Elvis e Delvis, de 13 e 8
anos. Dizem que andam na escola, mas custa a acreditar quando se olha
para os pés dos irmãos, cinzentos do pó. "Pedimos para comprar sapatos",
diz o mais velho, acabando por confessar que consegue 700 escudos (para
fazer o câmbio, basta tirar dois zeros) por dia com este tipo de
argumento. Quando se chega à Buracona perto do meio-dia, é possível ver o
"olho azul" nada mais do que o sol a incidir na escuridão de uma gruta
dando-lhe essa tonalidade. Nota: Levar bom calçado para andar pelas
rochas vulcânicas.
3 - É proibido proibir
Paramos o carro
junto a uma bomba de gasolina, onde está um letreiro que proíbe a
"lavagem de viaturas". Mesmo ao lado, um homem põe o seu Renault num
brinquinho, com grande descaramento. Aqui, é proibido proibir. A lei
também não permite que se conduza sem cinto ou se fale ao telemóvel, mas
toda a gente o faz. Estamos em Espargos, a capital da ilha, onde existe
um hospital, um centro cultural, uma biblioteca, a Câmara, um quartel e
bancos. Mas onde os miúdos brincam no meio da rua, indiferentes aos
carros, alguns deles descalços e onde as mulheres transportam alguidares
à cabeça, provavelmente cheios de bananas que vendem na rua a 120
escudos o quilo. Em Espargos encontra-se de quase tudo, mas a um preço
exorbitante para uma população que ganha cem euros de salário mínimo. A
explicação: a ilha não tem produção própria e todos os víveres têm de
ser importados (o barco vem carregado de duas em duas semanas). Em
Espargos, impõe-se uma ida ao mercado, para descobrir alguns dos legumes
e frutos locais, como a calabaceira e o tambarino. Antes de deixar a
cidade, e depois de uma subida à zona das antenas do aeroporto para se
absorver a vista, a esplanada Bom Dia é um bom local para experimentar a
Strela, a cerveja nacional.
4 - À sombra da Palmeira
É
na vila de Palmeira que se encontra o principal porto da ilha. Por isso
não nos espantamos quando vemos vários pescadores de volta de um enorme
tubarão-martelo, que trouxe lulas no bucho. Foi pescado, garantem-nos, à
linha, sem cana. Arelson Renato, de 22 anos, fala da proeza na maior
das calmas, enquanto chupa um gelado "artesanal" de laranja, embrulhado
em plástico, que saiu de uma lancheira por 10 escudos. Ao mesmo tempo,
salga-se blue fish, como nós salgamos o bacalhau, logo ali, à saída da
água. O anúncio de uma reunião dos alcoólicos anónimos na Casa dos
Pescadores faz adivinhar uma vida que não passa de grogue nos intervalos
da pesca. Talvez por isso, as mulheres mostrem o seu olhar melancólico,
às ombreiras das janelas, enquanto as crianças brincam em seu redor.
5 - O peixe é quem mais ordena
O
Sal não tem agricultura nem indústria. Vive exclusivamente do turismo. E
do peixe, que alimenta e encanta os turistas. Vale a pena perder uma
manhã no pontão de Santa Maria, onde os barcos chegam carregadinhos. O
passadiço de madeira enchese de gente que retira as entranhas à mão ou
com rudimentares facas de cozinha. Neste dia, o Sera, um enorme peixe do
tipo do atum, foi o mais apanhado um quilo rende cerca de 400 escudos.
Eduino, 45 anos, um dos muitos que vivem desta atividade, consegue fazer
três contos por dia (€30), na época alta. Assim que estão amanhados, os
peixes pousam em carrinhos de mão ferrugentos e são entregues, a pé,
nos hotéis das redondezas, num processo que não demora mais do que vinte
minutos. No pontão, também há cavalas e peixe miúdo, que se vende mal é
capturado. Assim como conchas, búzios, estrelas-do-mar, mandíbulas de
tubarão ou pele do peixe-balão para souvenirs. Com sorte, ainda há
mangas pequeninas, a 450 escudos o quilo.
6 - Está ali uma barbatana
Perto
da zona das salinas, na zona Norte da ilha, encontra-se um bidão com a
palavra "tubarão" pintada em várias línguas. Siga-se por aqui para
avistar este animal marinho. Desviando para a direção indicada por
aqueles escritos, aparecem dois miúdos a mandar parar o carro. Walter,
14 anos, e Euclides, 13, vivem no Freijoal, um pequeno casario onde
coabitam com mais 20 pessoas. Saltam para a caixa aberta da pick up e
indicam a praia onde os tubarões gostam de se mostrar. Pelo meio,
passase por umas dunas cheias de lixo trazido pelos barcos, onde a
palavra ecologia não tem significado algum. Assim que o carro para, na
baía da Parda, Walter entra mar adentro, por cima de pedrinhas pretas
escorregadias. Euclides fica em bicos dos pés, na pick up, a dar
indicações, porque não trouxe sapatos. A tarde já vai longa. Às três e
meia, na maré cheia, foi um festival de avistamentos. Agora, com o céu
carregado e o mar cinzento, é a custo que discorremos uma barbatana de
um tubarão-gato misturada na espuma das ondas, a poucos metros do local
onde paramos. Os miúdos asseguram que, nos dias bons, eles vêm quase até
à rebentação. Vale a pena tentar.
7 - Cuidado com as tartarugas
A catalã Berta Renom, 28 anos, chegou ao Sal, em 2011, como voluntária da associação
SOS Tartarugas.
Hoje coordena a ONG criada para evitar que os habitantes da ilha matem
estes animais marinhos para consumo à mesa. "Antes só se viam carapaças
de tartaruga espalhadas pela praia, agora preservamos-lhes o habitat e
os ninhos", explica, com o seu sotaque de Barcelona. A partir de julho, a
sua organização promove visitas às praias para observar a desova das
tartarugas, mas sob um código de conduta rigoroso: os grupos não podem
ter mais de dez pessoas, são acompanhados por um guia treinado e é
proibido usar flash nas fotografias. Os turistas são avisados ainda que
devem levar roupa escura e aprendem a caminhar junto à linha da costa,
na maré alta, para não atrapalhar o processo. Quando aparece um rasto,
devem parar e agacharem-se, sempre da parte de trás para que as
tartarugas não se assustem. A experiência custa 20 euros, que revertem
para a proteção destes habitats.
8 - Barco com vista
Emídio
Simões, 55 anos, é o português mais cabo-verdiano do Sal. Vive sozinho
nesta ilha desde 2007, tempo suficiente para conhecer toda a gente,
especialmente a partir do momento em que, como quase todos, se dedicou
ao turismo, criando o clube Odisseia. Em 2010 comprou o barco Neptunus e
passou a organizar passeios no mar. Esta espécie de submarino amarelo
tem o fundo em vidro e, por isso, por 33 euros, os turistas podem ver um
pouco da vida que se esconde no fundo desta água tão transparente. Em
frente ao hotel RIU faz-se a primeira paragem, pois é aqui que estão os
destroços de um navio afundado há quase um século. Entretanto, um
mergulhador dá comida aos peixes para que o espetáculo fique mesmo bem
na fotografia. A bordo serve-se ponche, uma das bebidas típicas da ilha,
feita à base de cana-de-açúcar (a outra é o grogue, a mesma base, mas
bem mais forte). João Silva, 30 anos, tem a pulseirinha dourada do Oasis
Salinas Sea, mas nem por isso quis perder este passeio que ainda
termina a tempo de ir, com a mulher, almoçar no hotel. Pedindo com
jeitinho, dá para mergulhar na segunda paragem, junto a um Cristo aqui
depositado como forma de proteger os pescadores.
9 - Um luxo de mar
O
mar do Sal dá-se ao luxo de permitir quase todos os desportos: do surf
ao skimming, passando pelo bodyboard. Mas, o que hoje agarra mais
adeptos é o kitesurf. Não admira o vento raramente dá tréguas. O stand
up paddel também começa a estar na moda, mas só quando os dias estão
mesmo bons. O norte-americano Rod Smith, 47 anos, nem esteve com meias
medidas. Na sua
Surf Zone, em frente ao lendário
hotel Morabeza,
escreveu: "No beach beds, no beers, no food, just surf." Aqui, já se
sabe, só vem quem quer ter aulas de kite (duas horas €70) ou windsurf
(uma hora €40), ou alugar material para praticar desportos aquáticos
(uma hora €15). Este é um dos principais locais que assistem quem não
leva as suas pranchas para o Sal, mas Santa Maria tem várias escolas
deste tipo e o mar está quase sempre cheio de gente a praticar.
10 - À noite tudo pode acontecer
Ir
ao Sal e não sair dos portões do hotel, nem que seja por uma noite, é
quase crime. Cabo Verde escreve-se ao som de música, há um cantor em
cada esquina, dança-se de forma primorosa, com um jogo de cintura que
nem vale a pena tentar imitar. Com a pulseirinha, pode ter-se um cheiro
das Mornas e do Funaná, mas só quem anda pelas animadas ruas de Santa
Maria vê, realmente, como os cabo-verdianos se divertem. Não há como
perder-se ou não encontrar os sítios mais animados, porque são poucos e
estão colados uns aos outros. Comece a noite no sofisticado Ocean Café,
explorado por italianos. Não é por acaso que, do nada, passa uma
travessa de piza, cortada aos pedaços, como uma oferta aos clientes.
Mude depois para o Buddys, com dedo espanhol, que se nota apenas nas
tapas. A (boa) música ao vivo continua por aqui. E termine a noite na
discoteca. Fica o mesmo aviso que ouvimos antes de entrar: "No Calemba é
de A a Z, tudo pode acontecer. " Se ainda conseguir, de madrugada,
espreite o Pirata, mesmo à entrada da vila.
Créditos:http://visao.sapo.pt/visaoviagens/africaemediooriente/dez-razoes-para-voar-ja-para-a-ilha-do-sal=f787885
0 comentários:
Enviar um comentário